Angola: Violência Simbólica denunciada em música por MCK

O novo manifesto musical “Violência Simbólica” do rapper angolano MCK é um trabalho complexo e profundo, que mostra a visão lúcida desse poeta, rapper, músico e analista político. Repleta de obscuridades, a panorâmica angolana não é simples de ser avaliada. O partido no poder (MPLA) propositalmente esconde inúmeras verdades da população, para que o povo não possa encontrar uma saída para a “Violência Simbólica” em que sofre.

Apesar de estudar na tese de doutoramento sobre o rap em Angola (e mais outros três países do espaço lusófono), eu também não arrisco a dizer que tenho uma visão tão profunda sobre essa “gestão caótica”. Utilizando metáforas e denúncias, MCK consegue trazer uma atualização da realidade angolana e apresentar uma análise aprofundada, que traduz para o seu interceptor a atualização do quadro político do país.

O rapper mostra denúncias na área da educação, saúde e gestão pública, apontando os nomes dos servos do poder angolano. São ensinamentos transmitidos pelo MCK que se tornam motivos de aprofundamento da minha pesquisa, para entender quem são os tais “bajú”. Aliás, deve-se ressaltar a coragem do músico ao desafiá-los e não fazer apenas críticas genéricas.

Outro ponto importante é a coragem de atualizar as técnicas de domínio que a intocável Isabel dos Santos segue avançando, como o controle dos meios de comunicação, os empregos como forma de silenciamento da população e as alianças no exterior.

A letra ainda se aprofunda sobre o domínio do partido em todas as camadas da sociedade, sejam políticas, jurídicas ou até religiosas. Apesar de analisar essa realidade a partir de fora, a sensação que me passa é de uma perseguição por completo, onde qualquer passo em falso pode representar perigo para quem afronta esse poder.

A frase “Especialistas mercenários, Doutores fudidos” me toca pessoalmente como doutorando, ao perceber que existem pessoas que simplesmente trocam noites em claro, em dedicação ao trabalho intelectual, por mesquinhos benefícios próprios, rasgando tudo que aprendeu e agindo em contramão do que deveriam ser seus princípios éticos. Quando os acadêmicos poderiam ser a salvação, buscando trabalhar intelectualmente uma saída, percebemos que o sistema está realmente corrompido e a base da pirâmide apenas sofre.

Em um sistema tão hostil, com grande violência simbólica, encontrar guerreiros lúcidos, como o MCK, que conseguem traduzir essa realidade, para os interessados “cá fora”, transmite um sinal de esperança para Angola e também para outros países que passam por tempos hostis, como o Brasil.

Apesar de todas as dificuldades que vejo sobre Angola, posso afirmar que é um estudo inspirador, por encontrar pessoas tão fortes, corajosas e inteligentes para lutar contra a opressão. Por isso, partilho uma letra que fiz recentemente sobre Angola e que deverá ser gravada em breve: Viajo a África... Tô cansado da lógica do eurocentrismo

É Angola forte, desde Ngola, ensinado a luta contra o colonialismo

Que ainda não acabou! Mudou a cor, mas renovou também o ativismo

De Belita Palma a Frazão! De Liceu a Luaty... Beirão!

Em kikongo, ovibumbo ou quimbundo.. Angola ensina pro mundo!

Somos Friends, o Oceano não separa, pode ser em língua qualquer

Gêmeos Separados, a energia é transmitida.. até Nas e Damian Marley samplaram o David Zé

Dançando semba ou kuduro, Angola é linda.. Deolinda!

Nada nos separa... vou com Mavungo até Cabinda

Sempre tendo como norte, do Teta, a União

Mas se for no sul... temos o Padre Pio como lição

De que é possível passar mensagem em qualquer lugar

Ser angolano parece ser dreda... mas não pode se calar

A chamada é grampeada... relógio de 500 mil, poder abusa!

Mas vou lendo quem resiste.. William Tonet, Rafael Marques e Agualusa


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