Viver nas artes: Entre loucura e perseverança

Entre muitos sonhos de criança, alguns deles envolviam as artes. Ser músico, ator ou palhaço eram alguns desejos. A iniciação na música aconteceu aos 10 anos quando meu pai me presenteou com um teclado, que eu nunca aprendi a manusear.
 

No Colégio Diocesano Santa Luzia, eu participei por dois anos da Fanfarra de Música, quando tinha por volta de 11 anos de idade.

Não era um dos melhores, mas era um dos mais perseverantes, tanto que um dia me ajoelhei para que a minha mãe não deixasse eu perder uma viagem do grupo. Viagem essa que ela resolveu me acompanhar e teve ônibus quebrado e tivemos que dormir no chão de uma escola, sendo que eu era só um mero figurante no grupo.


Quando mudei de escola, aos 13 anos, comecei a me envolver mais com o rock e criamos um grupo chamado Four Walls, que não chegou a fazer qualquer apresentação. Nela, eu procurava tocar pandeirola. Ao mesmo tempo, descobri a escrita como uma das formas em que eu conseguia me expressar. Escrevi algumas letras de música, em que o grupo gostou, mas fora do grupo era mais motivo de piadas. Com isso, após a banda não vingar, continuei escrevendo as letras, mas não mostrava para as pessoas.


Foi uma época de descobertas, em que eu também descobri uma forma em que envolvia a arte e o futebol em alguns jogos esportivos imaginários que criei, uma espécie de RPG de futebol, que eu jogava sozinho e misturava com diário. Eu passei a escrever anotações em que eu misturava jogadores e times reais com imaginários. Foi um vício que passei a ter por alguns anos, mas tinha muita vergonha de que alguém entendesse aquilo como loucura, então a minha letra pouco legível ajudava para que ninguém compreendesse o que estava ali descrito. Quando eu cansava do Planeta Terra, eu criava até outros planetas com times imaginários. Sendo assim, era uma forma que misturava o real e o imaginário, a escrita criativa com o futebol.
 

Outro lado da criatividade artística foi ativada com a criação do fotolog “Os Besthas”, que era um blog de humor, em que eu e meus amigos fazíamos fotos engraçadas nas ruas da cidade de Mossoró e postávamos na internet. Mesmo sendo um fotolog com adolescentes de apenas 15 anos de idade conseguimos atingir durante uma semana o recorde de acessos do Brasil, entre todos os fotologs.
 

Nessa mesma época de juventude, eu tive o primeiro contato com o rap. Foi através de um cd do grupo Planet Hemp. Ele estava explicitamente escrito que era proibido para menores de 18 anos e isso ativou meu lado curioso. Foi identificação no primeiro contato e a partir daí passei a escrever mais letras de música, bem como pesquisar sobre música e política, baixando discos de rap com bastante frequência, mesmo com internet discada. Esses discos foram muito importantes para a formação política, uma vez que passei a perceber sobre assuntos que não eram debatidos nos meus eixos diários, sobretudo as questões das lutas sociais.
 

Outra vertente artística que me encontrei foi o teatro. A escola que eu estudava, Geo Mossoró, realizava a Semana de Arte e Cultura, que envolvia peças teatrais. O desenvolvimento pessoal como ator foi satisfatório nos dois anos que participei, mas o meu grupo teve problemas técnicos nas peças, que impediram a vitória. Ainda assim, prestei vestibular para artes cênicas no Cefet-CE (atual Instituto Federal do Ceará) e fui aprovado, inclusive obtendo uma das melhores notas no teste de aptidão, mesmo não tendo feito qualquer curso de formação teatral.
 

Eu preferi ingressar no curso de Comunicação Social - Radialismo, na UFRN, em que me permitiu seis meses de férias, já que iniciava no segundo semestre. Nessa época de férias, eu utilizei as rimas para criar para os jogadores do meu time de futebol, o Baraúnas, chegando a integrar a torcida organizada do clube. Passei a criar rimas na hora e ser o puxador de coros da torcida. No entanto, a violência que já existia em outras cidades também chegou a Mossoró e resolvi desistir. Deixei para rimar apenas com o meu bisavô, que conseguiu fazer repentes em grande qualidade até os 100 anos de idade (ele faleceu em 2012 com 103 anos de idade).
 

O futebol, todavia, passou a ser minha prioridade profissional e não me envolvi tanto com algum segmento artístico durante a faculdade. O retorno só aconteceu em 2012, já em Coimbra (Portugal), quando passei a cursar mestrado. Paralelo a isso, vivíamos um “teatro real”, criamos uma organização semi-imaginária chamada República Independente do Terceiro Andar, na qual criamos hino, bandeira e lema e eu fui intitulado o presidente. Nisso, fazíamos rituais específicos, que apesar de ser uma brincadeira agitava o nosso lado criativo.


Voltando ao lado totalmente real, fiz algumas reflexões após terminar a Pós-Graduação em Marketing Esportivo, onde percebi o lado sujo do mundo business do futebol, o que me fizeram pouco a pouco desistir do mundo esportivo. Além disso, o lado crítico foi aguçado com algumas questões que eram problematizadas no mestrado. Dessa forma, resolvi retornar ao rap e desenvolver a dissertação de mestrado sobre o tema.
 

Passei a cantar rap freestyle com amigos e também o grupo Pé de Samba me deu a oportunidade para fazer umas participações nos shows deles. Em 2013, retornei para Mossoró, para desenvolver a dissertação de mestrado e tive pouco tempo para desenvolver algum trabalho artístico. Todavia, após o retorno para Portugal em 2014 comecei a fazer rimas com mais regularidade, tanto em batalhas, como em eventos e ações políticas.
 

Em 2015, eu fiz um rap freestyle em um jantar organizado pelo sociólogo Boaventura de Sousa Santos, o que abriu a possibilidade de escrever o capítulo do livro Novos Direitos Urbanos em formato RAP, bem como também escrevi um artigo científico sobre rap, para a Revista Internacional de Folkcomunicação. Em 2016, eu participei do evento Alice na Cidade. Ciências Sociais, Rap e Mais. Esse evento envolveu um show, um debate entre artistas e acadêmicos, além de um documentário.
 

Também passei a integrar o grupo de ativistas políticos Esquerda Brasileira em Coimbra, na qual compus letras para a divulgação dos atos políticos. Estou atuando também na Secção de Escrita e Leitura da Associação Acadêmica de Coimbra (SESLA), na qual participo na atuação de cenas teatrais, apresento poemas e também canto rap.
 

Ainda em 2016, tive a oportunidade de conhecer o humorista do Porta dos Fundos Gregório Duvivier, no qual ele publicou três vídeos de humor com a minha participação em suas redes sociais. Por último, fiz uma pequena participação no evento Ikopongo, que era um show histórico dos rappers Ikonoklasta (Luaty Beirão) e MCK. Com isso, organizei o evento Resistência Política Pela Arte, com participação de Luaty Beirão e Gregório Duvivier, na qual participei tanto como palestrante, como rapper e como humorista.
 

Em 2017, iniciei com um projeto próprio de rap, na qual teve os primeiros ensaios em janeiro e a primeira edição em fevereiro, denominada Mossoró-ADA. No evento, eu apresentei músicas escritas previamente, bem como improvisei e abri o microfone, para participações de beatboxers e outros músicos.

 

Veja também entrevista especial que concedi para o site HQ´s com Café, sobre rap:

http://hqscomcafe.com.br/index.php/2017/02/07/hqs-entrevista-carlos-guerra-junior/

© 2015 por  CARLOS GUERRA JÚNIOR Humildemente criado com Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now